Sobre o Mauro Ribeiro

Percurso

Mauro Ribeiro sintetiza a força do ciclista brasileiro, provando que mesmo num esporte em ascensão no país, é possível construir uma carreira de sucesso tanto no Brasil quanto no exterior.

Mauro é um dos ciclistas brasileiros de maior sucesso. Nos tempos de júnior, conquistou todos os títulos possíveis, brasileiros e pan-americanos, consagrando-se no ano de 1982, campeão mundial.

No profissional, integrou as maiores equipes e venceu provas importantíssimas, alcançando o ápice quando venceu a 9ª etapa do Tour de France, chegando à frente dos mitos Indurain, Rominger, Bugno, Jalabert no dia 14 de julho de 1991.

Veja detalhes do currículo

Conquistas: Tricampeão Paranaense, Campeão Brasileiro Adulto e Júnior, Campeão Panamericano 81/82 Júnior, Campeão Mundial 1982, Bronze nos 400m por equipe nos Jogos Panamericanos de Caracas (1983), Bronze nos 400m por equipe nos Jogos Panamericanos de Mar Del Plata (1996), Campeão da 9ª etapa do Tour de France 1991, Campeão da 7ª etapa Paris Nice 1991, Campeão Midi Libre 1990 e mais de 16 vitórias no circuito profissional.

Equipes: Cicles Romeo (1980 e 1981), Cicles Cascatinha (1982 e 1983), Caloi (1984), ACBB-França (1985), RMO (equipe profissional francesa entre 1986 a 1992), Chazal (atual AG2R, em 1993 e 1994), Lotto

Depoimento

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Dia 14 de julho. Comemoração, para os franceses, da queda da Bastilha, início da Revolução Francesa. O mesmo dia 14 de julho, mas mais de 200 anos depois: 1991. Data da minha revolução como atleta.

O dia 14 era o 9 dia do Tour de France. Eu tinha sido escolhido entre 22 outros ciclistas para estar na equipe de nove competidores da RMO que iriam correr a prova naquele ano.

E eu fui debutar no Tour. No ano anterior, tinha caído e quebrado o pé numa competição, passei 45 dias parado, tive dois meses de férias no Brasil, treinando duro para voltar à França e às provas. Dia 18 de junho, fui selecionado, quase sem acreditar, para completar o time da RMO nos 3900 km da prova – meca do ciclista.

Da minha equipe, faziam parte atletas como Marc Madiot, Eric Carituox e Charly Motet e eu, um recém-chegado. Apesar de pedalar profissionalmente desde 1986, aos 26 anos eu era um ciclista de provas individuais. O grandioso Tour, cuja competição gira em torno das equipes, era completa novidade.

No dia 14 de julho, às 9h da manhã, nós, “RMO-anos”, recebemos o briefing. A equipe não estava com bons resultados na prova. A estratégia adotada naquele momento era partir para guerra, ou seja precisávamos lançar o máximo de tentativas para que conseguíssemos alguma vitória.

Quando faltavam 40 km para o término daquela etapa (num total de 168 km), em uma fuga, um grupo de 16 ciclistas conseguiu se destacar do pelotão. Eu era um deles, me mantive com eles até ficarmos a 1,5 km da chegada.

O Johan Bruyneel (equipe Loto) estrategicamente tentou um descolamento do pelotão, neste mesmo momento a equipe Toshiba, que precisava de uma vitória, acabou usando uma tática de revezamento que o neutralizou. Quando isso aconteceu, quando eles se olharam, eu aproveitei o momento e saí. Consegui uma vantagem de 40 m faltando 400 m para o final da prova. Eu via a marcação regressiva: 350 m, 300 m, 250 m… Uma hora, eu olhei por baixo do braço e disse para mim mesmo: “é agora”.

Eu já estava no meu limite, puxei tudo o que tinha, e venci a etapa com 20 cm de vantagem.

Eu já estava no meu limite, puxei tudo o que tinha, e venci a etapa com 20 cm de vantagem.

Em 1991, ainda nenhum brasileiro havia Terminado o Tour ou ganhado alguma etapa. Atualmente ciclistas brasileiros continuam aspirando à uma vitoria como essa.

Naquele dia, nem consegui subir ao pódio. Mas isso nem importava mais. A imprensa, o público, a emoção. Tudo me tomava.
Ganhar uma etapa do Tour de France significou entrar para um time de elite entre os ciclistas. Você passa a fazer parte daquele conjunto de peças que não pode mais faltar. Eu já tinha sido campeão mundial, tinha vencido provas importantes, realizado outros feitos profissionais. Mas nada era como aquilo. A euforia que toma conta de você até atrapalha, desconcentra.

Chegar a Paris foi um sonho realizado. Era como participar de uma festa onde o bolo era servido apenas para uns poucos convidados especiais.

Minha vitória serviu para dar novo ânimo à RMO. Eu tinha ainda 12 dias de competição pela frente, mas não era fácil me concentrar novamente. No dia 16, Charly Motet, companheiro do grupo, venceu aquela etapa. No dia seguinte, no percurso de montanha, ele venceu novamente. No domingo seguinte, no dia 21/7, eu fui o terceiro colocado da etapa. Nos alpes, outro ciclista de nosso grupo obteve outra vitória. Nossa equipe terminou em 2 posição no 78 Tour de France.

Chegar a Paris foi um sonho realizado. Era como participar de uma festa onde o bolo era servido apenas para uns poucos convidados especiais.

Dias depois, de volta à Grenoble, a cidade onde eu morava no sudoeste da França desde 1986, tudo já parecia passado. Saí para tomar um café num bar onde costumava ir. Na hora de pagar, o dono não deixou: “esse é por conta da casa, em homenagem à sua vitória no Tour”. Aquele café ficou entre os troféus que guardei daquela corrida.

Entrevista à Rádio França

Confira a entrevista exclusiva que a Rádio França Internacional fez com o Mauro Ribeiro. Nela ele nos conta sobre sua conquista no Tour de France de 1991 e sobre o ciclismo no cenário do esporte brasileiro.

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